quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

"Após sua ex-namorada fazer um tratamento experimental para esquecê-lo, um homem decide se submeter ao mesmo processo. Porém ele acaba invertendo a situação, encaixando a ex-namorada em situações de sua vida as quais ela não esteve presente."
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Do que é feito o ser humano? Alma? Corpo?

Na minha humilde opinião um ser humano é feito do que ele viveu, logo de suas lembranças. Boas ou ruins, isso não tem importância. A realidade é que elas existem e toda vez que alguém tenta rouba-las de você, inicia-se uma busca mental deseperada para mantê-las.

Sempre que alguma coisa ruim acontece, ou que algo que você deseja muito não dá certo, logo ouve-se alguém dizendo: "Tudo bem, você esquece" ou "Esquece isso, deixa prá lá, não vale a pena".

Mas não quero esquecer, não posso esquecer. Minhas lembranças fazem quem eu sou. Eu sou aquilo que vivi. Não dá para simplesmente esquecer os últimos 31 anos da minha vida, porque metade das coisas não deram certo. Eu quero lembrar.

Neste exato momento, passo por uma busca desenfreada pelas minhas mémórias. De tanto ouvir as pessoas falando que eu deveria esquecer, eu simplesmente deixei de lembrar. Que horror! Eu paro, me concentro e a única coisa que vem à memória é o último minuto que eu vivi. Só que eu não vivi um mísero minuto. Eu vivi mais. Muito mais minutos.

A gente vive esquecendo o amigo da escola, o primeiro beijo, a primeira visita ao zoológico, o grande amor que não deu certo e de repente saímos em busca de todos os "primeiros" de novo. Isso é desgastante e cruel.

Quando você esquece alguma coisa que vivieu, esquece a sensação. Sem se dar conta fica revivendo e revivendo coisas que parecem nunca ter sentido, com uma certa tristeza no coração de que tudo passa.

Na realidade deveríamos pensa que tudo fica. Fica na memória o melhor amigo da escola, ainda que você não o veja mais, fica a primeira visita ao zoológico e expressão do seu rosto ao ver o leão urrar, aquela tremida de medo, gostosa de sentir.

Não seria sensacional se na próxima vez que você fizesse algo, que lhe desse muito medo, fosse possível lembrar daquela velha sensação de medo do leão? Um medo que passou rapidinho quando alguém te abraçou e te levou para ver a próxima jaula? A vida poderia ser mais fácil, afinal sua maior recordação seria de que o medo também passa.

Fica na alma o amor que deu certo sim. Você amou. O que não dá certo simplesmente não existe, não foi vivido. Não é errado lembrar de quem se amou demais, assim como é certo amar de novo.

Lembrar é bom. Recordar pode ser tão agradável como ver um álbum de fotografias. Saber que você foi importante para alguém, que as pessoas mais incríveis e diferentes são parte da sua história. Ser feliz é poder ter saudade, é querer fazer coisas novas só para poder se lembrar delas mais tarde.

As vezes eu olho uma cicatriz que tenho no joelho e ao invés de lembrar a dor que eu possa ter sentido ao cair, me lembro como me diverti, correndo ladeira abaixo, contra ao vento. E daí que eu cai depois? Todo mundo cai algum dia, de algum lugar. O importante é que do chão, realmente não se passa. No fim das contas há sempre uma base para te segurar, mesmo que ela esteja mais longe do que se gostaria.

Por isso, lembre, lembre muito. Nunca se esqueça de lembrar com um grande sorriso nos lábios! Viver pode ser tão simples como uma boa lembrança.